Dia chato em quase tudo é domingo. Trata-se de um sentimento universal. Cada um tem uma antipatia especial pelo dia que antecede a segunda-feira, o segundo mais enjoado da semana. Quem trabalha aos domingos o faz por força da necessidade ou da atividade e, geralmente, entrega justificado mau humor. Domingo é dia de acordar de ressaca e é também o de visitar parente mala ou de recebê-lo em casa, querendo ou não. Fora as coisas que inventam de enguiçar ou estragar no domingo, quando quase tudo fecha, a não ser aqueles lugares onde trabalham as pessoas que o atendem mal e onde nunca está a solução para o que você busca ou precisa. Eleição é de propósito em domingos que ocorre. Agora as manifestações de protesto também, o que, para muitos é uma boa e econômica razão para sair de casa.

Destaque especial das coisas ruins tem a programação de TV. Nesse último domingo, por exemplo, zapeando na inútil tentativa de achar alguma coisa que prestasse, depois de ver 159 vezes que Ferreira Gullar havia morrido aos 85 anos e que 15 corpos da triste tragédia foram enterrados em Chapecó, fui bater no canal Curta, que nunca tinha visto antes, mas que, segundo informação exposta na própria tela, sobrevive há quatro anos. Estava no ar um quadro de entrevistas com proprietários de apartamentos de cobertura.

Uma mídia que é uma concessão pública, excessivamente cara em sua produção e veiculação, o tal canal Curta foi ouvir Brasil afora felizes donos desses privilegiados espaços, nas praias do Rio, Salvador, Fortaleza e outras mais, sobre a avaliação que eles faziam de suas moradias. Confesso que, durante um bom tempo, imaginava que se tratasse de um quadro de humor, do tipo “Pânico” ou outro do gênero, e que as pessoas que estivessem ali vomitando aquelas idiotices não fossem reais.

Mas eram. No Rio entrevistaram um casal de filhos de uns 25 anos, que festejavam poder ver a comunidade Morro de Dona Marta, onde, quase toda noite, os tiroteios faziam cruzar nos céus ‘balas incandescentes das mais diversas cores’; o filho, quando questionado sobre o prazer de ali morar, respondeu que ‘a curtição, quando dava o endereço’, era realçar que morava numa cobertura naquela avenida e bairro.

Outro, dizendo-se empresário, comparava tal prazer ao que tinha por extensão, que era o de ver em sua garagem um Jaguar e um Mercedes-Benz. Mas não para aí: outro jovem, com menos de 30 anos e que nunca deve ter tido a carteira de trabalho assinada, justificava que ele morava naquele endereço porque seus pais trabalhavam muito, que não era de graça que ele ali vivia.

À parte de chamar a atenção para o absurdo de um canal de televisão, produto de uma concessão pública, colocar no ar um lixo dessa espécie (dizem também que a Globo voltará em breve com “Os Trapalhões”), o que mais entristece é que pessoas pensem assim e não tenham pudor de dizer em público no que acreditam, de forma tão equivocada e deslavada. Essas pessoas, por sua condição econômica, influem, geram opiniões ainda que seja para outro universo de ignorantes, mas, juntas, ajudam a eleger o Congresso, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais, que fazem (ou que deveriam fazer) nossas leis.

Com base nessa realidade, os protestos de domingo, além dos apelos que ostentam, deveriam buscar a discussão de outros modelos de representação política. Qual é o melhor, eu não sei, mas não é o que temos. Por nossa indigente realidade, pela absoluta falta de alternativas de mudanças, pela conturbada relação dos Poderes, do que resta do que um dia fomos, temos que mudar muito e urgentemente. Estamos longe de sermos uma República.

Luiz Tito - Publicado no Jornal  O Tempo, em 06/12/16